Emanuel Lasker

“Não estou jogando com peões brancos ou negros, sem vida. Jogo com seres humanos de carne e sangue”! Emanuel Lasker.

Emanuel Lasker

Pode-se dizer, parafraseando o Conselheiro Acácio, que existe no mundo do xadrez jogadores com os mais diferentes perfis psicológicos. Há aqueles que primam pela extrema racionalidade como Botvinnik; numa categoria especial, no Olimpo, estão os gênios como Capablanca e Mikhail Tal. Têm ainda jogadores como Kasparov que dominaram com profunda complexidade e heterodoxia as diversas fases do jogo. Num outro extremo está aqueles que usam da sua prodigiosa memória para se familiarizar com milhares de posições, como Fischer. Deve-se lembrar que Karpov quando se preparou para o match, não realizado, contra Fischer, tinha em mente conduzi-lo para posições no qual aquele não estava acostumado e forçá-lo a jogar no máximo desconforto possível, determinadas posições. O plano de Karpov estava em perfeita consonância com a escola psicológica de um dos mais originais enxadristas que já existiu, o Dr. Emanuel Lasker.  O seu estilo de jogo, surpreendentemente, não preconizava a melhor jogada e sim a que mais desagradava ao seu adversário.  O seu slogan da partida de xadrez poderia muito bem ser resumida na frase no qual refutou o conceito de estratégia de Steinitz: “O Xadrez é uma luta entre duas mentes”!  A luta psicológica, marca digital de Lasker, foi levada ao completo radicalismo. Nunca tantos excelentes jogadores erraram tanto, como quando o enfrentavam.

Numa outra observação de agudeza ímpar e no qual definira o seu conceito psicológico do jogo de xadrez, observara: “quando um forte mestre pensa uma hora em média, uma jogada, creio que não me convém fazer o que ele deseja”!!

"Diante do tabuleiro, a mentira e a hipocrisia não sobrevivem por muito tempo. A combinação criadora desmascara a presunção da mentira, os impiedosos fatos, que culminam no mate, contradizem o hipócrita." – Emanuel Lasker, depois de refletir sobre os sete pecados capitais dos enxadristas, enunciados por Tartakover(Superficialidade, Voracidade, Pusilanimidade, Inconsequência, Dilapidacão do tempo, Excessivo amor a  paz(!), Bloqueio).

Lasker, judeu, nasceu em 24 de dezembro de 1868, na Alemanha. Aprendeu xadrez aos onze anos de idade. Foi menino prodígio não no xadrez, mas na matemática. Ainda na juventude, na escola em Breslau, mostrou extrema proficiência em filosofia, impressionando os seus professores. Ao visitar o “Café Kaiser Hoff”, com 14 anos, venceu a todos os jogadores. Em 1889, com 21 anos, em Breslau, supera todos os seus rivais e devido a este sucesso foi convidado a Londres e ganha, invicto, do campeão inglês J.H. Blackburne, ganhando 6 em 10 partidas e empatando 4. Em 1890 em Berlim, derrota Curt von Bardeleben e Jacques Mieses. Em 1893, visita os Estados Unidos e vence o Torneio Internacional de Nova Iorque. No mesmo ano desafia o campeão americano, Jackson Showalter, vencendo-o com 6 vitórias, 1 empate e 2 derrotas. Em 1894, com 25 anos de idade, desafia Wilhelm Steinitz pelo título mundial, realizado em Nova Iorque.O match realizou-se entre 15 de março e 26 de maio de 1894, em Nova Iorque, Filadéldia e Montreal com um tempo de 2 horas para os primeiros 30 lances  e 1 hora para cada 15 lances seguintes. O prêmio para o vencedor era de 2250 dólares e 750 para o perdedor. Kasparov em “Mis Geniales Predecessores”, comenta: "O começo do duelo foi muito intrigante e dramático. Na primeira partida, Lasker superou a seu oponente, porém Steinitz logrou uma espetacular revanche na segunda. Na continuação, ambos lutadores, trocaram duros golpes e seguiram-se dois empates de muita luta (em ambos os casos com um peão de vantagem para Steinitz). Depois de seis partidas o marcador estava igualado em 3×3 e o momento de inflexão chegou com a sétima partida".Steinitz, jogando com as negras, na abertura Rui López, respondeu com a sua própria defesa (Defesa Steinitz:1-e4-e5;2-Cf3-Cc6;3-Bb5-d6;4-d4-Bd7;5Cc3-Ce7).

Nesta notável partida, apesar de intrincada, Steinitz, de acordo com Kasparov, cometeu um erro decisivo no trigésimo sexto lance: Rd6.”Balançando-se na beira do abismo, o jovem Lasker exibe aquelas qualidades que lhe permitiram conservar a coroa mundial durante tanto tempo. Numa posição difícil, arriscou-se a plantar a seu oponente problemas complicados, típicos do xadrez da segunda metade do século XX (característicos de jogadores como Mikhail Tal). É difícil criticar Steinitz por seus erros: ele lutou com todos os seus recursos, diante de um selvagem ataque. Esta supertensa partida estava adiante do seu tempo e não foi compreendida pelos seus contemporâneos. Creio que a sétima partida resultou decisiva no match porque quebrou a resistência de Steinitz. Ele experimentou um transe quase místico. Era isto possível? Tais coisas não podem passar”. Kasparov. Para B.Vainstein, a sétima partida deste histórico match, foi decisiva por um motivo psicológico fundamental: “Esta derrota psicológica afetou seriamente Steinitz. Todas as conexões sistemáticas dos seus métodos defensivos saltaram. Depois disto Steinitz perdeu quatro partidas consecutivas”.

Lasker x Steinitz
Match Lasker versus Steinitz, 1894.

“No tabuleiro de xadrez lutam pessoas e não figuras”. Emanuel Lasker.

A sétima partida deste match guarda, no tempo, uma interessante simetria com a sétima partida do match Tal versus Botvinnik. O método psicológico usado por Tal contra Botvinnik foi extremamente semelhante ao usado por Lasker contra Steinitz. Naquele match, Botvinnik jogando com as pretas, plantou a sólida defesa Caro-Kan e de acordo, com Clarke, “não sem um esforço super-humano”, conseguiu obter vantagem. Semelhante a Lasker, Tal desencadeou um ataque violento, jogando de forma imprecisa (assim como Lasker!), mas complexificando a posição a cada lance. Ficou claro que Botvinnik tinha perdido o seu caminho nas complicações colocadas pelo seu adversário. No momento crucial, da partida, assim como Lasker sacrificara uma peça para manter vivo o seu ataque, Tal também sacrificara uma torre. Em ambas as partidas, tanto Steinitz como Botvinnik defenderam-se brilhantemente, para sucumbirem ao erro pela magnitude dos problemas plantados no tabuleiro. No vigésimo nono lance da sétima partida do match Lasker-Steinitz, Kasparov observa: “nesta partida intervém o fator Tal: o ataque branco é bastante inconcreto, não resolutivo, porém não parece ter fim”! No lance 38, o mesmo Kasparov assinala: “o que pode fazer as negras? Até um potente computador requereria uma quantidade de tempo considerável para entender esta intrincada posição”. Após a última partida, Steinitz levanta-se com dificuldade e se posta diante de Lasker e grita 3 “hurras” para o novo campeão. O match é ganho pelo escore de 10 vitórias, 4 empates e 5 derrotas e Lasker torna-se o segundo Campeão Mundial de Xadrez.

“A diferença entre um mestre e um bom aficionado não reside precisamente no mais fundamental. O bom aficionado tem, geralmente, um grande conceito do xadrez, possui o sentido cabal da estratégia e em linhas gerais tem a mesma visão de um mestre. Sabe onde está um ponto débil e como deve planejar a manobra ganhadora. Porém se equivoca na concatenação das jogadas. As transpõe e malogra oportunidades valiosíssimas”! Emanuel Lasker.

 Um ano após a conquista do título contraiu febre tifóide, correndo sério risco de morte. Enquanto se recuperava, tirou em terceiro lugar no Torneio Internacional de Hastings, o maior torneio de xadrez realizado no século XIX. A imprensa da época, alcunhara Lasker, Steinitz, Tarrasch e Tschigorin como o “quarteto estelar”. Para a surpresa geral, este quarteto logo seria transformado num quinteto. O americano Harry Nelson Pilsburry, após perder na primeira rodada para Tschigorin pontua nas rodadas seguintes, 9,5 em 10! Vencendo Tarrasch de forma fulminante no gambito da dama. Faltando 3 rodadas para o final, Lasker estava a frente com 14,5, Tschigorin, 14, Pilsburry, 13,5(!) e Tarrasch,11. Nas três rodadas restantes, Pilsburry ganhou todas as partidas, ficando ante a surpresa geral, na primeira posição! Diante desta inesperada colocação do mestre americano, os 4 primeiros colocados se encontram em 1896, em São Petersburgo, sem a presença de Tarrasch que resolvera se dedicar a sua profissão de médico. Este supertorneio realizou-se em forma de match. Os quatro jogadores mais fortes (Lasker, Pilsburry, Tschigorin e Steinitz)  se enfrentariam entre si, seis vezes! Na primeira rodada Lasker perde na abertura para Pilsburry, na defesa Petrov, em apenas 21 lances! Na segunda partida, nova derrota de Lasker! Superado num final de cavalo contra bispo. Na terceira partida, Pilsburry empata. Depois de 3 rodadas, Pilsburry tinha 6,5(de 9), Lasker,5,5; Steinitz, 4,5 e Tschigorin(cansado por ter organizado o torneio), 1,5. Neste decisivo momento, houve um descanso de 5 dias para os participantes e talvez este descanso tenha sido fatal para Pilsburry. Em 4 de janeiro de 1896, deu-se o quarto encontro Pilsburry versus Lasker e uma vitória do americano tornaria este o desafiante número 1 ao título mundial. Jogando com as negras, no Gambito da Dama, Lasker deixa passar um arremate no lance 21, retribuído por Pilsburry no lance 24, após passar uma chance de empatar. Lasker na sequência deixa passar o ganho, ainda no lance 24. Logo depois Lasker fica apurado pelo tempo e consegue afetar, desta forma, o critério de julgamento de Pilsburry, que perde a calma e deixa passar a sequência ganhadora que poderia mudar os destinos do xadrez.As brancas se rendem. Lasker considerava esta a sua melhor partida. Esta derrota afetou Pilsburry gravemente e por conseqüência perdeu as cinco partidas seguintes, perdendo o segundo posto para Steinitz. Segundo um historiador, citado por Kasparov, Pilsburry, devido a esta derrota, investiu toda a sua energia, durante o resto da sua curta vida (morreu aos 34 anos de idade), para recuperar o seu brilho de 1895 em Hastings, sem lograr êxito. Não obstante, seis meses depois de São Petersburgo, em Nuremberg, Pilsburry ficou em segundo lugar, recebendo um prêmio especial de beleza, do barão de Rothischild, por sua espetacular vitória sobre Lasker. Kasparov considera que o match não ocorrido Lasker versus Pilsburry poderia ter representado uma grande surpresa para o campeão Lasker.

 “O seu jogo estava décadas à frente de seu tempo. Nem Tschigorin ou Tarrasch poderiam entender as suas partidas”. Kasparov, comentando a partida 7 do primeiro match Lasker-Steinitz.

 No match revanche de 1896, contra Steinitz, Lasker vence sem dificuldades pelo escore de 12,5 contra 4,5.

Ainda neste excitante ano de 1896, lançou o livro “Senso Comum no Xadrez”, baseado numa série histórica de palestras que ele tinha dado anteriormente, em Londres. A partir do ano de 1896 ele pára as suas atividades enxadrísticas para se concentrar na sua educação. Em 1902 obtém doutoramento em matemática na universidade Erlangen-Nürnberg, Alemanha, orientado pelo grande matemático David Hilbert, que ficara famoso 2 anos antes ao apresentar no Congresso Internacional de Matemática, em Paris, uma lista de 23 problemas de pesquisa na área. Hilbert permaneceu como um dos mais eminentes matemáticos de todos os tempos. A tese de Lasker foi sobre "calculo geométrico e número ideais usados na álgebra".  Na sua defesa de tese, ele expõe seu célebre teorema sobre a "Teoria de Espaços Vetoriais", que mais tarde atrairia a atenção de Albert Einstein. Na década de 20 ele compartilhara o mesmo apartamento com Einstein que dissera sobre o amigo: “Emanuel Lasker foi indubitavelmente uma das pessoas mais interessantes que conheci em toda a minha vida”. Nas longas caminhadas que fazia com Einstein, os temas predominantes eram a matemática e a filosofia.

“Me comparam com Lasker, mas esta é uma honra excessiva! Para mim ele foi o maior dos campeões porque no tabuleiro conseguia realizar o impossível!Era um assombroso tático que ganhava partidas aparentemente desesperadas”. Tal.

Até aqui se falou do enxadrista e do intelectual. Mas ele também se destacava como ser humano No que pese ter inventado um tanque de guerra, durante a primeira guerra mundial, Lasker era conhecido também por sua magnanimidade. Em 1920, por exemplo, ele propusera passar o título de campeão mundial para Capablanca, que não aceitou a oferta. A sua sensibilidade tinha sido afetada quando verificara, algum tempo depois da conclusão do seu doutorado, que as universidades alemãs não aceitavam judeus nos seus quadros. Em 1911, casara-se com Martha Kohn. Martha era mais velha do que Lasker, e viúva e avó. Logo depois da cerimônia, afirmara para os amigos: “Acabo de me transformar, de repente em marido, pai e avô!". Atribui-se a Lasker, o mérito de ter elevado a importância do xadrez. Ele lembrava-se sempre do destino miserável de Steinitz para exigir recompensas financeiras na participação, não só dele, mas também de outros enxadristas, em torneios. Chegou a tentar cobrar direitos autorais por suas partidas, sem conseguir êxito.

Defendeu o seu título oito vezes contra Frank Marshall, Tarrasch, Janovsky (duas vezes), Schlechter e por fim, Capablanca, em 1921. Sobre Tarrasch, dissera com fina verve: “carece da paixão que faz ferver o sangue”! Em relação à Alekhine, disse: “quando o rei dos seus rivais não se encontra em perigo, Alekhine joga sem entusiasmo. Sua fantasia, porém, se acende quando periga o rei adversário”. Sobre Capablanca, refletira: “Se espera muito dele, no entanto é muito simples vencê-lo”!

“A idéia do xadrez concebido como arte é impensável sem Lasker”. Alekhine.

Em 1910, o seu título corre grande perigo contra Karl Schlechter, (o maior conhecedor na época, da abertura Rui López), e na verdade, ele só se salvara devido a uma cláusula que contava na disputa do título, indicando a obrigação de Schlechter ganhar pela diferença de dois pontos! Na última partida, Schlechter, com um ponto adiante no marcador, poderia empatar facilmente, mas se viu vítima da própria marca psicológica do seu oponente: ele, alcunhado por Tarrasch como o mestre do empate, devido ao seu caráter amável que o impelia a conceder empate a quase todos os jogadores que lhe pediam (ele concedia empate a jogadores inferiores, mesmo tendo posição superior!), via-se na obrigação de forçar o ganho na última partida.

Lasker x Capablanca

A explicação dada por Botvinnik para a dificuldade encontrada por Lasker contra Schlechter é no mínimo curiosa: “Até certo ponto o jogo de Schlechter não tem rosto, de forma que Lasker não tinha nada a se agarrar”, referência a dificuldade do uso da arma psicológica, por parte de Lasker.

Contra Frank Marshall, venceu invicto, por 8,5 a 3,5. Contra Janovsky, em 1910, venceu novamente sem nenhuma derrota, pelo placar de 9,5 a 1,5. Em 1921, em Havana, perde o título mundial para Capablanca, sem ganhar uma só partida. Acredita-se que o clima tropical, no qual nunca estivera acostumado, exercera nele o mesmo equivalente psicológico que ele costumava aplicar aos seus adversários, no tabuleiro. Por causa desta derrota, tentara mais tarde, debalde, reunir dinheiro para tentar enfrentar Capablanca, novamente. Este, porém, antecipando o mesmo comportamento futuro de Alekhine, jamais deu qualquer chance de revanche a Lasker. Em 1923, ganha o torneio de Mährisch-Ostrau e em 24, vence de forma categórica, o magistral Torneio Internacional de Nova Iorque, com Capablanca em segundo e Alekhine em terceiro. Em Moscou, 1925, tira em segundo lugar à frente de Capablanca. A partir deste ano se retira da arena do xadrez para estudar e ensinar filosofia, além de se dedicar a criação de pombos. Em 1927, participa da olimpíada como o líder da equipe olímpica de bridge, da Alemanha.
Charge Lasker

Charge mostrando o seu desconforto durante o match “climático”, em 1921, em Havana, Cuba.

“O xadrez se joga com a mente e não com as mãos”! Emanuel Lasker, rindo de uma frase de Tartakover que dissera que no xadrez jogam muitas vezes, mais de quatro cavalos!

Com a chegada de Hitler ao governo alemão, ele teve todas as suas propriedades confiscadas e deparou-se novamente com o fantasma que combatera durante todos os anos precedentes e que tinha atormentado Steinitz. Nesta ocasião, além de deplorar a perda dos seus bens, ele lamenta amargamente ter que se desfazer do hobby preferido: a criação de pombos. Sem nenhuma ilusão quanto à natureza demoníaca de Hitler, ele parte da Alemanha, em 1933, ano da ascensão de Hitler ao poder, para jamais retornar. A sua ruína financeira o forçou a voltar aos tabuleiros, em 1934, no torneio de Zurique, com a idade de sessenta e seis anos. Na primeira rodada, jogando contra Max Euwe, realiza um maravilhoso sacrifício de dama que é referido por Vainstein com o adjetivo de "colossal"! A sombra de Steinitz, no entanto, no qual rechaçara sem tréguas, ironicamente, o perseguiria até a sua morte.

Obtém o 5º lugar em Zurique em 1934, 3º em Moscou em 1935, e 6º também em Moscou em 1936, 7º em Nottingham, em 1936. Em 1937, muda-se para New York e acredita ver o fantasma de Steinitz. Justificando, plenamente, uma famosa observação de Plutarco, que dissera “que ninguém no mundo pode se declarar feliz, antes do último suspiro”, Lasker, ex-campeão mundial, filósofo e doutor em matemática, principia a jogar partidas por U$ 0,50. Em 9 de novembro de 1938, tem a "honra" de ver os seus livros queimados pelo obscurantismo nazista, na chamada Kristallnach (A noite dos cristais), juntamente com os livros de Freud, Einstein e outros renomados nomes judeus que revolucionaram a ciência, a cultura e as artes do século XX.Sua irmã seria morta mais tarde numa câmara de gás, nazista. Em 11 de janeiro, de 1941, Emanuel Lasker morre em completa pobreza, em Nova Iorque.No dia da sua morte recebera a visita do mestre e grande finalista, Reuben Fine e esposa. Já não podia falar. Um momento antes de morrer a sua esposa o ouviu sussurrar: "Rei do xadrez".

Emanuel Lasker foi o jogador que deteve por mais tempo o título mundial.Seus conceitos no xadrez influenciaram o estilo de jogadores como Tal e Fischer. Nas suas partidas é possível encontrar muitos erros, no entanto, uma análise mais profunda, mostraria que estes erros encerravam, no seu núcleo mais profundo, uma ameaça psicológica sutil destinada a cada jogador que lhe enfrentou. O seu sofisticado método psicológico foi usado com extrema filigrana no famoso Torneio de São Petersburgo, 1914, contra Capablanca. Neste torneio ele venceu o gênio cubano usando na abertura uma linha que normalmente conduzia ao empate, mas que teve o espetacular mérito de fazer baixar a guarda de Capablanca. É dele a máxima “cada lance deve levar em si uma ameaça, por mínima que seja”. No final de jogo era quase imbatível e bastava ter uma vantagem microscópica que esta seria seguramente convertida em vitória. Sua vida, em linhas gerais, seguiu a sua trajetória no tabuleiro. Assim como disse “o xadrez é luta”, ele observou também, comparando ao xadrez, “a vida é luta”. Seguiu a trajetória prescrita rigorosamente pela deusa Caissa para os seus eleitos: riqueza e magia no tabuleiro, destino trágico no final da vida. A longa tradição imemorial no qual não poupou Morphy, Tschigorín, Steinitz, dentre muitos outros, continuou com Lasker.

“Se o xadrez é luta, o melhor é Lasker”. Tartakover.

Obs: Eu usei neste artigo informações da “Enciclopedia Britannica” e da “Enciclopedia Libre Universal en Español” e do livro de Kasparov “Mis geniales predecessores”.Presto homenagem, com este artigo, ao meu falecido amigo Lehar Ladeia David que era fervoroso admirador de Emanuel Lasker.

14 comentários em “Emanuel Lasker”

  1. Gostaria de ressaltar a minha admiração pelo trabalho prestado pelo pessoal do site, em especial ao autor, a memória e honra de nobres mentes enxadrísticas, únicas e maravilhosas, que nos enbelezam e orgulha-nos de ser enxadrístas. Além do que desenvolve o prestígio do xadrez.
    Se pensarmos em um jogador de xadrez que conhecia aquilo que iria acontecer, ou como pensava um jogador, esse sem dúvida é único e exclusivamente Emanuel Lasker, Doutor em Matemática, Campeão Mundial de Xadrez por 28 anos! e uma mente prodigiosa. Lasker foi o segundo a impor que no Xadrez, além de racíocinio era fundamental a psicologia ( o primeiro foi Morphy). Mas de qualquer maneira, ele demonstrou isso em suas partidas. Lasker não jogava o melhor lance, mas aquele que mais irritava o seu adversário. Lasker é um caso a parte na listagem dos enxadrístas. Ele é incompáravel, um exemplo que deve ser seguido por todos.

  2. Esses textos, tornam o site mais interessante.O final desse texto-tem uma nota a respeito de algo que só fiquei, sabendo por meio desta-O falecimento do Lehar David.

  3. o xadrez é a arte mais bela que eu já conhecir, e mim emociona muito poder saber mais sobre esse esporte da mente, vcs estao de parabens por esse artigo!

  4. Belo e bem elaborado artigo sobre este excelente ser humano e enxadrista que foi Emanuel Lasker. De toda a constelação de grandes jogadores da arte de Caíssa foi, Lasker, sem dúvida nenhum , o maior exemplo a ser seguido. Excelente artigo!!!
    marivaldo

  5. parabéns pelo trabalho, Emanuel Lasker realmente foi um excelente jogador mas como Raul Capablanca e Paul Morphy jamais existiu; estes foram os gênios!

  6. É uma historia de vida espetacular! com um fim tragico por conta da gerra… já tinha lido algumas coisas sobre a vida enxadristica de Lasker e alguns do seus legados , mas nada tam profundo como esse artigo sobre a vida dela parabéns pelo artigo Armínio Santos…

  7. Fiquei totalmente estupefato com a matéria histórica e espetacular do autor neste site sobre Lasker. A foto do match entre ele e Steinitz, de 1894, acho uma preciosidade das maiores. Embora eu seja músico e baixista de rock, quando jovem jogava xadrez e me recordo dessa fase de admiração pelos campeonatos mundiais e Escolas etc.

    Apesar de eu considerar, por simples razões pessoais, o Alekhine o maior jogador de todos os tempos (Mikhail Tal e sua entrega quase kamikaze de peças pesadas para dar xeque-mate com apenas um cavalo e bispo contra Dama, Torre e Cavalo etc. do opontente também me deixava atônito), por suas jogadas agressivérrimas e que pareciam provir do nada, eu também “passava” jogos do Lasker com os livros de xadrez que colecionei e vendi, e ficava muito impressionado com tamanha profundidade. Parabéns pela matéria, é simplesmente brilhante, a importância do valor do momento e as fotos e o conteúdo nunca vi em nenhuma coluna sobre xadrez me perdoem alguns minha sinceridade…

    1. Obrigado. O mínimo que eu poderia fazer com estes grandes mestres era tentar não ser superficial. As suas vidas de forma geral seguem uma simetria com as vitórias e derrotas no tabuleiro. Os artigos sobre Pillsburry e Steinitz que escrevi aqui, mostram estes jogadores como personagens de tragédias shakesperianas. Com o artigo de Capablanca procurei mostrar os limites da inteligência causada pela arrogância. Com Fischer, sempre me impressionou o seu grau de loucura. Neste caso, o riso, na escrita, foi o principal condutor da tragédia que foi a sua vida. Em grande medida num nível inconsciente. Com o artigo sobre Tal eu pude expressar toda a minha admiração pelo seu gênio criativo, procurando sempre não insultá-lo com lugares comuns ou apreciações superficiais. Um abraço.

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