Poema – Odes

por Ricardo Reis

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

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Poema – Xadrez

por Jorge Luis Borges

I

Em seu compenetrado recanto, os jogadores
movem as lentas peças. O tabuleiro
retarda-os até a aurora em seu severo
âmbito em que se odeiam duas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei que se resguarda,
oblíquo bispo e peões agressores.
Quando esses jogadores tenham ido,
quando o tempo os haja consumido,
por certo não terá cessado o rito.
Foi no Oriente que se armou tal guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

 
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